Técnica mista sobre papel. 29,7 × 42 cm cada, 2025.
O título Seteiras vem das estreitas aberturas presentes em antigas fortificações, através das quais era possível observar o exterior sem se deixar ver. Na série, eu desloco essa função: a fresta deixa de operar como dispositivo de vigilância externa ou defesa e passa a se tornar uma abertura para observar algo além das aparências, internas ou externas (mas sempre mais profundas). O que se avista permanece incompleto, visível apenas em fragmentos; ainda assim, esses indícios já revelam a existência de algo que os excede. Está visto, e não temos como desver.
A escrita participa desse movimento de maneira ambígua. Em alguns momentos, as letras aparecem como elementos essencialmente gráficos; em outros, constituem poemas que só se revelam parcialmente através das aberturas. A linguagem compartilha, assim, a própria condição da fresta: oferece acesso, mas não totalidade. Um espaço para o transcendente ou o divino como presença intuída a partir dos seus vestígios e curtas aparições.